domingo, 9 de junho de 2019

Não quero saber de zap zap!

 
"Não quero saber de zap zap" essa é uma fala de dona Nice, uma senhora que tem 55 anos, segundo ela esse negócio de "zap zap" (se referindo ao WhatsApp), não dá certo porque o povo só quer saber da vida dos outros, e ainda pode acessar nossos dados, conta de banco, essas coisas. Seu neto Ramon de 7 anos, acessa fotos, joga e manda mensagens utilizando celular, ela fica curiosa para vê o que ele está acessando, com quem está falando. Tem uma história que ela conta que revela que apesar de dizer que não quer saber disso, deixe eu aqui com meu bichinho(referindo-se ao celular analógico dela)  por conta do contexto e da curiosidade acaba se aproximando dos dispositivos digitais.
Certo dia seu neto estava mandando um aúdio por WhatsApp para a mãe dele, ela pediu o celular:
- Me dá aí que preciso falar com sua mãe.
- Oi Cláudia você está ouvindo?
- Oxe minha avô não é assim não! Peraê que vou apagar esse áudio e te mostrar.
- É assim, a senhora segura aqui e fala, depois solta e manda o áudio, aí a senhora vai esperar ela mandar outro áudio te respondendo não demora, é rápido. Entendeu?
Antes de mandar o áudio ela pediu um tempo e caiu na gargalhada.
- É mole esses meus netos…
Ela se refere no plural “netos” porque tem outro o “Polegarzinho” Gustavo.

O “POLEGARZINHO” GUSTAVO

“Polergarzinho” expressão utilizada por Michel Serres(2013) para se referir aos meninos e meninas que nasceram num contexto permeado pelo digital, e tem uma agilidade para utilizar os dispositivos móveis, acessar a internet e informações que estão disponíveis. Segundo Serres(2013) esses meninos e meninas “por celular tem acesso a todas as pessoas, por GPS a todos os lugares, pela internet a todo saber” (p.19). O Polergazinho Gustavo nasceu nesse contexto, hoje tem 4 anos, apropria-se dos dispositivos móveis dos seus pais, mas para fazer uso do tablet do pai fizeram um acordo. O pai estabeleceu que não pode baixar outros jogos sem pedir permissão, ele concordou.
Um dia de sábado, o pai saiu e deixou Gustavo jogando minecraft, sua mãe estava em casa e ficou observando, depois de algum tempo percebeu que ele estava falando baixinho próximo ao tablet como se estivesse conversando com outra pessoa. Então se aproximou para compreender o que estava acontecendo, viu que ele apertou o ícone de gravação de áudio de um buscador na internet, falou “jogo Ben 10”, apareceram as opções na tela, ele clicou, baixou e começou a jogar. A mãe questionou:
- O que está fazendo aí? Estava falando com quem?
- Baixei o jogo do Ben 10 porque queria jogar.
- E qual foi o acordo com seu pai?
- Pera..
Nesse momento, ele pressionou o ícone do jogo e transferiu para terceira tela.
- Pronto papai não vai saber né mãe?
Ou seja, sabendo que geralmente deixamos os ícones dos aplicativos na primeira tela, dificilmente consultamos as outras, ele deslocou o ícone para última tela e pronto problema resolvido, mas o que o Polegarzinho Gustavo ainda não sabia é que instalar um jogo em qualquer dispositivo não implica somente na quebra de um acordo, mas envolve riscos como vírus, acesso a dados pessoais, jogo inadequado para idade etc.
Essas experiências possibilitam refletir alguns aspectos relacionados ao encontro entre as gerações, no uso e apropriação das tecnologias digitais. Não podemos considerar essa apropriação a partir de determinismos, se é jovem se apropria das tecnologias com facilidade, e se é idoso tem dificuldades e deve aprender com os jovens. Segundo CASTRO MORALES (2018) temos que perceber outros aspectos: socioeconômicos e culturais que interferem na forma como as pessoas interagem, além disso, não é porque tem agilidade em utilizar os dispositivos que tem consciência sobre o uso, entendimento sobre o funcionamento e pensamento reflexivo. “Tanto las tecnologías, así como las geraciones, no poseen características ni potencialidades fijas, rigidas y dadas; su participacion y funcíon varían dependiendo de la forma em que son integradas(os)”.
Nesse contexto, é preciso possibilitar a participação de todas as pessoas, e considerar que os mais velhos tem o que ensinar e os mais novos tem o que aprender e ensinar.

Ass: Filha de Nice, Mãe de Gustavo e Tia de Ramon.


2 comentários:

  1. hummmm Guga já está dando um nó em papai e mamãe... hehehe... é isso aí mamãe pedagoga, é preciso estar atenta, orientando, mediando a relação dos jovens com as TIC, pois eles ainda não têm consciência de todos os riscos e potencialidades dos ambientes que acessam. A relação entre as gerações é o caminho para um uso crítico e interessante.

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  2. Polegarzinho Gustavo está é testando os limites para ver até onde pode ir. Fiquei pensando nas conversas com meus pequenos alunos quando tratava do uso dos celulares e de ver como eles precisavam de orientação. É isso que faz a diferença. Realmente, educar para toda e qualquer circunstância da vida importa muito. Viva os polegarzinhos! Olho vivo no seu e um beijinho para ele! rsrs

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